
Ontem à noite, eu estava especialmente cansada... mental, física, emocional e psicologicamente...
Não vem ao caso, agora, discursar sobre esse assunto, não seria oportuno.
Não costumo deitar-me antes da 1 da manhã, mas mandei meus alunos embora antes de terminar a aula, por não estar conseguindo me concentrar. O cansaço era demasiado. Não me lembro de ter sentido uma exaustão dessa grandeza em meus 52 anos intensamente vividos!
Deitei-me para relaxar um pouco, ainda vestida. Pretendia apenas relaxar, tentar meditar um pouco, depois comer alguma coisa, tomar um banho, olhar meus e-
mails e dormir. Nem preciso dizer que adormeci quase que imediatamente! Esqueci de guardar o carro na garagem, deixei-o dormir na rua... (atitude imprudente...) Deixei computador ligado, celulares (tenho 3!) telefone sem fio no andar de baixo e deixei o mundo ser mundo...
De repente, ouvi lá no fundo, lá
looonge, uma voz me chamando insistentemente... havia uma certa urgência em sua voz, e reconheci a voz como sendo de uma amiga querida, que mora fora de São Paulo, numa
cidadezinha, uns 40 km daqui. A Lê é uma pessoa especial, doce, meiga,
espiritualizada, vegetariana, enfim, toda "
natureba". Ela mora num lindo sítio, rodeado por reservas florestais, cercada de plantas e animais, num
lugarzinho bem parecido com o que imaginamos ser o paraíso... Enfim, uma paisagem mais do que bucólica.
Sua voz tornava-se mais e mais aguda, e seu chamado mais intenso. Lembro-me de constatar que estava dormindo, e questionei ainda meio em transe sonolento...-"Como a Lê poderia estar me chamando aqui se ela está na casa dela e eu aqui na cama, em casa?" Finalmente, depois de tanta insistência, acordei.
Fui ao banheiro, depois resolvi descer para tomar um pouco d'água. O telefone de casa pulou da mesa de tanto vibrar e chamar! Havia nele mais de 18 chamadas não atendidas, e todos os celulares haviam se deslocado a vários pontos longe da mesa, (dois estavam no chão e o outro na cadeira, a ponto de se suicidar pulando no chão!) de tanto vibrarem... atendi o telefone e reconheci a voz assustada da Lê. Ela falava rápido e tanto que eu mal conseguia entender o que dizia... meu cérebro ainda estava meio dormente.
Lembro de ter ouvido umas duas vezes a palavra monstro enorme, e aranha...
Tentei acalmá-la, e aos poucos, minhas funções cognitivas foram retornando a um estado mais ou menos funcional, a ponto de poder realmente
inteligir o que me era dito.
Ela descreveu um ser
monstruoso, de uns dois metros de altura, com oito longas pernas
marrons horrivelmente peludas, montado e segurando a maçaneta da porta, prendendo-a no escritório de sua casa (aquela no
lugarzinho paradisíaco...) onde 4 pares de olhos a fitavam
ameaçadoramente... Ela estava realmente em pânico. Essa imagem formada em minha mente, decorrente das descrições de minha amiga, era digna de um daqueles filmes de terror classe B! E em seguida me vieram cenas do filme "
Aracnofobia" à mente... Um pouco mais sóbria então, optei por uma cena mais
objetiva, mais pé-no-chão... Visualizei uma aranha
marrom na porta, parecida com uma
armadeira, de uns 12 cm de diâmetro, incluindo suas longas pernas, visão essa que realmente assustaria qualquer um. Uma imagem um pouco mais realista, apenas... Falando num tom calmo e esclarecedor, expliquei a ela que embora fosse um bicho assustador, não havia motivo real para estar assim tão aterrorizada.
Expliquei que o pobre animal certamente estava mais assustado que ela, e que a visão monstruosa de um ser bípede, enorme, (
tadinha da aranha, tão pequenina perante esse ser humano enorme e ameaçador...), e cheguei até a pedir que minha amiga se colocasse na posição desse pobre ser artrópode e imaginasse o medo que esse "
insetinho" teria dela...
Claro que isso foi absolutamente inútil... o terror de minha amiga, apenas entrou num patamar de um certo controle, para que ela não gritasse em
desespero. Meus tímpanos já haviam sido sensibilizados o suficiente ao atender o telefone...Por sorte, o marido dela, um homem de belo porte, extremamente culto, e discípulo de uma certa
xamã renomada, chegou enquanto conversávamos "calmamente" ao telefone. Ele teve a
reação que se espera de um aprendiz de
xamã...
Pegou uma
latinha de
inseticida em
spray, e a esvaziou sobre o pobre
inseto, que obviamente, completamente tonto e entorpecido pelas toxinas do veneno do
spray, resolveu se esconder em algum lugar mais seguro... mas devido ao tamanho dele, apesar de estar bastante intoxicado, permanecerá vivo, aterrorizando seus hospedeiros ainda por algum tempo... Desejo que ele encontre o caminho para fora para evitar outra
overdose de
inseticida...
Os gatos de minha amiga estavam enlouquecidos atrás daquela pobre aranha, e já estavam apresentando sinais de intoxicação por
inseticida.
Minha amiga, ainda ao telefone comigo, tossindo sem parar, descrevia a nuvem de
inseticida que nublava sua visão da porta onde originalmente se encontrava o ser monstruoso, começando então uma crise de espirros... Seu companheiro já apresentava sinais de asma, parecendo um gato ronronando e conseguia ouvir um chiado esganiçado e o barulho de sua bombinha nebulizadora... Minha mente deveria ser censurada... Nesse momento, imaginei todos na casa, jogados no chão, prostrados inconscientes, e vitoriosa, a aranha gigante, com uma das patas levantada, em sinal de vitória, com as outras sete sobre os corpos dos meus amigos e seus gatos... Triunfo total sobre o inimigo poderoso! :)
Isso me
pôs a pensar... Como somos seres estúpidos... Por medo, destruímos seres que nem sequer nos fizeram mal, nem nos ameaçaram, nem atacaram.
Nem nos damos ao trabalho de observar o outro ser, tentar entender o que o move, o que ele quer, o que está fazendo e por que. Vamos logo à destruição... somente depois perguntamos... ou nâo.
E ainda dizem que somos seres racionais, superiores aos animais...seres irracionais...