quarta-feira, 1 de abril de 2009

Acidente de estudo...




Estava eu, uma jovem professorinha de 19 anos, lecionando inglês e alemão em uma renomada escola de línguas de São Paulo, quando um episódio engraçado por pouco não encerrou minha breve carreira como instrutora...
Num agradável fim de tarde de primavera, cheguei esbaforida para minha primeira aula daquele dia. Era uma turma fechada de 8 engenheiros da Volkswagen, que achava que eu ainda era menor de idade... A média de idade dos alunos era de uns 25 a 30 anos. Todos homens. Nessa época, eu realmente não aparentava minha idade, e devido a isso, fui barrada em shows, cinemas, barzinhos...
Alguns dos alunos mais velhos tinham alguma dificuldade em me aceitar como professora. Imagine uma turma de engenheiros, quase todos solteiros e “avulsos” , com bastante energia, inteligentes e machistas... Um deles, chamá-lo-ei de Ricardo, era especialmente bem-apessoado e tinha um senso de humor daqueles! Ele sempre começava a aula contando alguma piadinha, com o intuito de me deixar sem-graça ou embaraçada com algum comentário picante. As aulas sempre decorriam num clima agradavelmente hilário e descontraído. Ricardo aproveitava a ocasião para flertar abertamente com a professorinha... que obviamente fazia de conta que nem percebia.
Como durante as aulas não era permitido falarmos português, eu me desdobrava para explicar e esclarecer todas as dúvidas que naturalmente surgiam. E para isso, tinha de lançar mão de técnicas teatrais e algumas vezes até exageradas de representação. Faltava pendurar-me no lustre da sala para que eles entendessem algum tópico ou conceito mais complicado...
E sempre que eu usava a lousa para anotar algo, Ricardo soltava uma de suas piadinhas...
E para fazer com que ele parasse com algumas das brincadeiras, eu revidava das mais variadas formas, e algumas vezes voavam objetos pelo ar – canetas do quadro branco, borrachas , lápis, canetas esferográficas, apagadores do quadro... Os apagadores eram feitos pela própria escola, (naquela época ainda não havia apagadores de E.V.A! ou de plástico com feltro!). Consistiam de um pedaço de madeira, como um pequeno bloco retangular, revestido com um pedaço de flanela e para manter a flanela sobre a madeira, havia uma capinha de alumínio recobrindo uma das superfícies do bloco. Alguns desses apagadores possuíam arestas cortantes, por causa das rebarbas de corte do metal.
Ricardo sempre desviava dos objetos voadores identificados, mas numa das vezes, já sem opções de objetos para arremesso, joguei o apagador. Ricardo, deliciando-se com o rubor que causara em meu rosto, esqueceu-se de desviar do objeto que o atingiu em cheio, no centro de sua testa. Infelizmente, uma das rebarbas do metal o feriu e o corte precisou de uma sutura de 11 pontos! Fiquei mortificada com o ocorrido e levei o pobre rapaz ao pronto-socorro mais próximo. Cheguei a pensar que ele iria desistir de continuar o curso, pedir transferência de turma, ou pedir que eu fosse demitida... Mas não foi isso que aconteceu...
No dia seguinte, ele apareceu com um curativo enorme na testa, e entrou em aula usando um capacete de motocicleta!
Sempre de bom-humor, ele insistiu em permanecer na turma e fez questão de me manter como professora.
Dois dias depois do ocorrido, ele continuava a assistir às aulas usando o referido capacete, o diretor e dono da escola, passando pelo corredor, olhou para a classe, cumprimentou-me, e continuou seu caminho. Segundos depois voltou para conferir se não havia se enganado com o que vira... Um aluno de capacete em plena sala de aula!
Nesse instante pensei que seria demitida ao ouvir as palavras: “ Dona Inge, em minha sala, imediatamente!” Gelei. Enquanto o diretor me passava o maior sabão, já preparando a carta de demissão por justa-causa, Ricardo havia feito um abaixo-assinado com os colegas de sala e contou com mais seis outras turmas que fizeram questão de assinar, pedindo que eu fosse mantida como professora... Minha demissão foi reconsiderada.

Os engenheiros daquela turma ainda desenvolveram um novo tipo de apagador, bem menos perigoso, feito de borracha com feltro, presenteando a escola com vários exemplares. No final do estágio, na cerimônia de encerramento, fui por eles homenageada, com a entrega de um troféu de melhor professora - arremessadora de apagadores de melhor pontaria(e de alta-periculosidade!) – Troféu: um apagador gigante acompanhado de um manual de instruções de manobras de desvio de “objetos-voadores-bem-identificados” e de como evitar “Acidentes de Estudo” para os alunos...




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