terça-feira, 16 de outubro de 2012

Ensaio sobre o Ridículo...


Ensaio sobre o Ridículo...
15/10/2012

 

Há, exatamente 5 dias, no dia do meu 56º aniversário, fiz uma constatação no mínimo bizarra e curiosa: estou viva! ( Brilhante! Quem estaria escrevendo isso em meu lugar?!)


Bem, cheguei a essa conclusão devido àquela nossa velha e conhecida sensação de panapaná gástrico!  Essa deliciosa, mas ao mesmo tempo desconfortável sensação de farfalhos de centenas de asinhas no estômago. (O que raios é panapaná? – perguntaria você. Essa veio realmente do fundinho do meu baú – senti-me jurássica agora!) Panapaná ou boana é um bando de borboletas em revoada, migrando para locais mais floridos e mais quentes (agora é a bióloga falando...) e, não, não pesquisei no Google! Confiei em minha memória e também estava com preguiça de levantar e ir até o computador. *(Escrevi este texto à mão primeiro).


Uma certeza eu tive, não era fome, nenhuma sensação de vazio, e sim uma sensação de preenchimento por lindas criaturas aladas e furiosamente agitadas dentro de minha cavidade estomacal. Mas, esta sensação não pára por aí... Racionalmente falando, vamos analisar melhor: Quando esse tipo de sensação me invadia? – Geralmente quando estava prestes a entrar em cena na época em que fazia teatro amador ou quando era bem sucedida em alguma empreitada e aguardava reconhecimento ou aprovação, ou... (aí vem a bomba, a parte mais engraçada!) - quando me apaixonava por alguém!


Conclusão: não era fome e eu não tinha feito nada que merecesse algum reconhecimento ou coisa que o valha. Então, só poderia ser uma única coisa – estou apaixonada! E isso sempre me fez sentir viva!


“Aaaah, não!”, pensei eu com os meus botões. “Não pode ser! Isso é simplesmente ridículo!” Eu até desconfio de quem possa ser o objeto desse afeto inusitado e fora de propósito... mas, será?


Fui investigar isso mais a fundo. Levantei-me, como em um transe, vencendo a inércia da preguiça galopante e fui olhar o computador. Como uma lança, minha razão foi atingida com um impacto assustador. (Ou será que foi o coração, que já está cansado e todo raladinho e coberto de cicatrizes?) O sobressalto foi tremendo! Já há algum tempo minha razão se impusera sobre esse coração mole e bobo. Agora ambos, razão e sentimento, concordaram com a constatação visual: Estou maluca! Doidinha de pedra! Estava ali na minha frente, a irrefutável prova do flagrante delito – aberta na tela, a foto do indivíduo responsável pelo meu futuro encarceramento em alguma instituição mental! Ampliada e sorrindo para mim (bem, não exatamente para mim – o que prova que minha imaginação desatou em disparada e tomou as rédeas) a foto do rapaz, em excelente forma física (e que físico!), lindo sorriso (...estou com calor!), dentes maravilhosos, (lá vai a minha imaginação de novo...) cabelos negros de corte impecável, rosto lindamente iluminado por um olhar franco e honesto (e que olhos!) e... ah, o resto você mesmo imagina. Uma perfeição! (Estou sem fôlego e o meu coração completamente descompassado!)


“ Ahhh, não pode ser!” (Então, como você explica a foto dele copiada em sua “pastinha” de amigos, heim, lindinha???)


Realmente devo ter perdido o juízo. Roubei a foto do rapaz, (e que exemplar, ufa!) Para quê?


Não sei... Acho que o meu cérebro entrou em hibernação ou coma por alguns instantes, só pode!


Quanto mais olho para a foto e para o perfil dele em minha rede social, mais intensamente e mais desconcertantemente essas borboletas malditas farfalham, querendo até sair pela boca! E isso seria desastroso...


Mas, diria você, o que há de errado ou demais em se apaixonar?


Nada... se for algo mais razoável e plausível! (O que há de razoável e plausível nesse estado???)


O tal (preciso recuperar o fôlego) objeto do meu afeto é simplesmente 16 anos mais novo que eu... Sinto-me absolutamente ridícula, desconcertada com mais esta constatação.


Este belo (!) exemplar de representante do sexo masculino (aaaahhh, minha imaginação está indo longe demais!) pode ter, literalmente, qualquer mulher que desejar. (Aiii, essa doeu e foi fundo!) e a improbabilidade de alguma ligação maior não faz  estas abomináveis criaturas, esses insetos ignóbeis e inconvenientes, sossegarem de maneira alguma!


O que faço agora? E agora José? (Simples: NÃO FAÇA NADA!!!) – (Mais fácil falar que colocar em prática...)


Como faço para colocar novamente o cabresto nessa indisciplinada e rebelde imaginação que alimenta estes insetos estomacais e os faz crescer em proporções medonhas?


Odeio perder o controle racional dos meus sentimentos. Estes sentimentos descontrolados parecem minhocas mutantes que povoam as ideias, me desconcentram, me tiram de minha zona de conforto, me lançam em território desconhecido e incerto, me tiram do meu ponto de equilíbrio. Por outro lado, a sensação de estar viva é deliciosa e torna o mundo mais bonito, o sol mais brilhante, as flores mais perfumadas e as borboletas (lá vêm elas de novo!) mais coloridas e eu mais ridícula que nunca! Sentindo-me feito colegial, sorrindo à toa, fantasiando antes de adormecer e sonhando de olhos abertos. Quimeras...


Como vou conseguir encará-lo da próxima vez? (Por enquanto ele nem faz ideia do que se passa...)


Sei exatamente o que vai acontecer. Sentirei meu rosto em chamas, estarei ruborizada (parecendo a Emília do Sítio do Pica-Pau amarelo!), meterei os pés pelas mãos, perderei o fio da meada, começarei a gaguejar, tropeçar, derrubar tudo ao meu redor, ainda mais que o normal, terei brancos de memória... Resumindo, uma completa idiota!


Sim! Estou apaixonada. (Até parece aquela música brega do Daniel...) Apaixonada da forma mais estúpida possível. Ridículo! Hilário! Triste e sem futuro...


Minha imaginação produz centenas de argumentos, desculpas para manter ativa essa emoção absurda, tomando como exemplos a famosa e maravilhosa Tina Turner e seu companheiro alemão, 17 anos mais novo ou até a nossa brasileira, Suzana Vieira e seu namorado, quase uma geração mais novo!


“Mas, e daí?”, diz essa vozinha interna irritante, tagarela e insistente. (Mais um indício da necessidade de uma camisa de força... o Charcot que me aguarde!) Além do mais, não tenho as super pernas da eterna diva, nem o viço ou sequer os meios para qualquer intervenção com o intuito de apagar ou deter as marcas do tempo e das experiências traumáticas desta patética existência.


Baixa autoestima, diria você. Não. Bom senso e espelho! A realidade é cruel. Ainda agora, ecoa da rádio alemã que adoro ouvir online, a nova música da Adele, “ Skyfall”, e a frase “ This is the end” rasgando meu coração. (É a música tema do novo filme de James Bond – 007 – Skyfall).


É como cair do céu sem paraquedas e acabar num mergulho profundo no mar. Não há como sair incólume dessa experiência, muito menos deste sentimento. Dirão os sábios que sairei mais amadurecida (já caí do pé de tão madura!) e bem mais forte... A essa altura da minha vida, já deveria ter me tornado uma fortaleza inatingível, ou pelo menos ter aprendido a arte de controlar esses sobressaltos cardíacos e esses devaneios malucos. Sinto-me completamente fora de contexto, mas dentro do meu elemento – uma contradição quase paradoxal, eu sei. Sou uma criatura aparentemente madura, mas sou na verdade, a mesma menina ingênua de 16 anos, apaixonada pela vida, pelas pessoas e apaixonada novamente por pessoas improváveis, sonhando com utopias Quixoteanas.


Pois é, estou apaixonada. O coração dispara, as mãos ficam úmidas e me torno essa pessoa estúpida, idiota e incoerente outra vez.




Consegui, finalmente, dominar com perfeição e maestria, 
a técnica correta de fazer tudo errado!


Adele - SKYFALL


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