Ensaio sobre
o Ridículo...
15/10/2012
Há, exatamente 5 dias, no dia do
meu 56º aniversário, fiz uma constatação no mínimo bizarra e curiosa: estou
viva! ( Brilhante! Quem estaria escrevendo isso em meu lugar?!)
Bem, cheguei a essa conclusão
devido àquela nossa velha e conhecida sensação de panapaná gástrico! Essa deliciosa, mas ao mesmo tempo
desconfortável sensação de farfalhos de centenas de asinhas no estômago. (O que
raios é panapaná? – perguntaria você. Essa veio realmente do fundinho do meu
baú – senti-me jurássica agora!) Panapaná ou boana é um bando de borboletas em
revoada, migrando para locais mais floridos e mais quentes (agora é a bióloga
falando...) e, não, não pesquisei no Google! Confiei em minha memória e também
estava com preguiça de levantar e ir até o computador. *(Escrevi este texto à mão primeiro).
Uma certeza eu tive, não era
fome, nenhuma sensação de vazio, e sim uma sensação de preenchimento por lindas
criaturas aladas e furiosamente agitadas dentro de minha cavidade estomacal.
Mas, esta sensação não pára por aí... Racionalmente falando, vamos analisar
melhor: Quando esse tipo de sensação me invadia? – Geralmente quando estava
prestes a entrar em cena na época em que fazia teatro amador ou quando era bem
sucedida em alguma empreitada e aguardava reconhecimento ou aprovação, ou...
(aí vem a bomba, a parte mais engraçada!) - quando me apaixonava por alguém!
Conclusão: não era fome e eu não
tinha feito nada que merecesse algum reconhecimento ou coisa que o valha.
Então, só poderia ser uma única coisa – estou apaixonada! E isso sempre me fez
sentir viva!
“Aaaah, não!”, pensei eu com os
meus botões. “Não pode ser! Isso é simplesmente ridículo!” Eu até desconfio de
quem possa ser o objeto desse afeto inusitado e fora de propósito... mas, será?
Fui investigar isso mais a fundo.
Levantei-me, como em um transe, vencendo a inércia da preguiça galopante e fui
olhar o computador. Como uma lança, minha razão foi atingida com um impacto
assustador. (Ou será que foi o coração, que já está cansado e todo raladinho e
coberto de cicatrizes?) O sobressalto foi tremendo! Já há algum tempo minha
razão se impusera sobre esse coração mole e bobo. Agora ambos, razão e
sentimento, concordaram com a constatação visual: Estou maluca! Doidinha de
pedra! Estava ali na minha frente, a irrefutável prova do flagrante delito –
aberta na tela, a foto do indivíduo responsável pelo meu futuro encarceramento
em alguma instituição mental! Ampliada e sorrindo para mim (bem, não exatamente
para mim – o que prova que minha imaginação desatou em disparada e tomou as
rédeas) a foto do rapaz, em excelente forma física (e que físico!), lindo
sorriso (...estou com calor!), dentes maravilhosos, (lá vai a minha imaginação
de novo...) cabelos negros de corte impecável, rosto lindamente iluminado por
um olhar franco e honesto (e que olhos!) e... ah, o resto você mesmo imagina.
Uma perfeição! (Estou sem fôlego e o meu coração completamente descompassado!)
“ Ahhh, não pode ser!” (Então,
como você explica a foto dele copiada em sua “pastinha” de amigos, heim,
lindinha???)
Realmente devo ter perdido o
juízo. Roubei a foto do rapaz, (e que exemplar, ufa!) Para quê?
Não sei... Acho que o meu cérebro
entrou em hibernação ou coma por alguns instantes, só pode!
Quanto mais olho para a foto e
para o perfil dele em minha rede social, mais intensamente e mais
desconcertantemente essas borboletas malditas farfalham, querendo até sair pela
boca! E isso seria desastroso...
Mas, diria você, o que há de
errado ou demais em se apaixonar?
Nada... se for algo mais razoável
e plausível! (O que há de razoável e plausível nesse estado???)
O tal (preciso recuperar o
fôlego) objeto do meu afeto é simplesmente 16 anos mais novo que eu... Sinto-me
absolutamente ridícula, desconcertada com mais esta constatação.
Este belo (!) exemplar de
representante do sexo masculino (aaaahhh, minha imaginação está indo longe
demais!) pode ter, literalmente, qualquer mulher que desejar. (Aiii, essa doeu
e foi fundo!) e a improbabilidade de alguma ligação maior não faz estas
abomináveis criaturas, esses insetos ignóbeis e inconvenientes, sossegarem de
maneira alguma!
O que faço agora? E agora José?
(Simples: NÃO FAÇA NADA!!!) – (Mais fácil falar que colocar em prática...)
Como faço para colocar novamente
o cabresto nessa indisciplinada e rebelde imaginação que alimenta estes insetos
estomacais e os faz crescer em proporções medonhas?
Odeio perder o controle racional
dos meus sentimentos. Estes sentimentos descontrolados parecem minhocas mutantes
que povoam as ideias, me desconcentram, me tiram de minha zona de conforto, me
lançam em território desconhecido e incerto, me tiram do meu ponto de
equilíbrio. Por outro lado, a sensação de estar viva é deliciosa e torna o
mundo mais bonito, o sol mais brilhante, as flores mais perfumadas e as
borboletas (lá vêm elas de novo!) mais coloridas e eu mais ridícula que nunca!
Sentindo-me feito colegial, sorrindo à toa, fantasiando antes de adormecer e
sonhando de olhos abertos. Quimeras...
Como vou conseguir encará-lo da
próxima vez? (Por enquanto ele nem faz ideia do que se passa...)
Sei exatamente o que vai
acontecer. Sentirei meu rosto em chamas, estarei ruborizada (parecendo a Emília
do Sítio do Pica-Pau amarelo!), meterei os pés pelas mãos, perderei o fio da
meada, começarei a gaguejar, tropeçar, derrubar tudo ao meu redor, ainda mais
que o normal, terei brancos de memória... Resumindo, uma completa idiota!
Sim! Estou apaixonada. (Até
parece aquela música brega do Daniel...) Apaixonada da forma mais estúpida
possível. Ridículo! Hilário! Triste e sem futuro...
Minha imaginação produz centenas
de argumentos, desculpas para manter ativa essa emoção absurda, tomando como
exemplos a famosa e maravilhosa Tina Turner e seu companheiro alemão, 17 anos
mais novo ou até a nossa brasileira, Suzana Vieira e seu namorado, quase uma
geração mais novo!
“Mas, e daí?”, diz essa vozinha
interna irritante, tagarela e insistente. (Mais um indício da necessidade de
uma camisa de força... o Charcot que me aguarde!) Além do mais, não tenho as
super pernas da eterna diva, nem o viço ou sequer os meios para qualquer
intervenção com o intuito de apagar ou deter as marcas do tempo e das
experiências traumáticas desta patética existência.
Baixa autoestima, diria você.
Não. Bom senso e espelho! A realidade é cruel. Ainda agora, ecoa da rádio alemã
que adoro ouvir online, a nova música da Adele, “ Skyfall”, e a frase “ This
is the end” rasgando meu coração. (É a música tema do novo filme de James Bond
– 007 – Skyfall).
É como cair do céu sem
paraquedas e acabar num mergulho profundo no mar. Não há como sair incólume dessa experiência, muito menos deste
sentimento. Dirão os sábios que sairei mais amadurecida (já caí do pé de tão
madura!) e bem mais forte... A essa altura da minha vida, já deveria ter me
tornado uma fortaleza inatingível, ou pelo menos ter aprendido a arte de
controlar esses sobressaltos cardíacos e esses devaneios malucos. Sinto-me
completamente fora de contexto, mas dentro do meu elemento – uma contradição
quase paradoxal, eu sei. Sou uma criatura aparentemente madura, mas sou na
verdade, a mesma menina ingênua de 16 anos, apaixonada pela vida, pelas pessoas
e apaixonada novamente por pessoas improváveis, sonhando com utopias Quixoteanas.
Pois é, estou apaixonada. O
coração dispara, as mãos ficam úmidas e me torno essa pessoa estúpida, idiota e
incoerente outra vez.Consegui, finalmente, dominar com perfeição e maestria,
a técnica correta de fazer tudo errado!


