Era uma hora da tarde, a pequena Inge, com o rosto inchado de tanto chorar, finalmente venceu a vergonha e conseguiu reunir forças e coragem suficientes para abrir o pequeno portão verde da entrada de sua casa. Aos oito anos de idade, sentia-se derrotada e fracassada... Tirara a pior nota da classe em Geografia. Sentia-se humilhada por não conseguir entender, imaginar, visualizar e localizar espacialmente continentes, países, estados, cidades e bairros. Para completar, não possuía um senso de direção apurado, característica que herdara de sua mãe, Christel. Christel era uma mãe dedicada, porém rígida e crítica e sua forma de demonstrar seu amor pelos dois filhos e seu marido era cuidar de tudo com primor, não se permitindo esquecer um detalhe sequer. Era enfermeira de formação. Era dura, às vezes implacável até, no que dizia respeito à educação de seus filhos, mas era assertiva e correta. Paralisada, Inge precisava vencer ainda dois grandes obstáculos: abrir a porta da sala e enfrentar sua mãe... O que ela faria? O que diria? Certamente reclamaria pela filha não ter se esforçado o suficiente... Respirou fundo, abriu a porta e entrou.
Sua mãe estava na cozinha cuidando do almoço. Assim que avistou a filha, percebeu que havia algo errado. Largou os pratos que colocava na mesa e foi ter com a pequenina. Perguntou docemente o que a preocupava. Inge começou a soluçar e atropelando as palavras e com as mãozinhas trêmulas, entregou-lhe a prova com a nota baixa. Sua mãe a abraçou e tentou acalmá-la. Disse-lhe para lavar as mãos e o rosto e sentar-se à mesa para almoçar. Seu irmão, Dietmar, acabara de chegar em casa da escola também.
Reclamou que tinha ido à escola da irmã e não a tinha encontrado. Estava sem fôlego. Dietmar era cinco anos mais velho e estudava no colégio de meninos no quarteirão ao lado da escola da irmã. Como irmão mais velho, sentia-se responsável pelo bem estar da irmãzinha. Estava bastante contrariado por ela ter se aventurado sozinha a caminho de casa. Ia dar-lhe uma senhora bronca, mas sua mãe fez um sinal para que ele se calasse. Sentaram-se à mesa e almoçaram em silêncio. Inge mal conseguia comer. Levantou-se, foi até a sala de jantar com seus livros, e começou a ler e tentar estudar, decorar, sem entender do que se tratava. Lágrimas escorriam-lhe pela rosada face. Entardecia... Era hora de o engenheiro Franz voltar do trabalho. Ele era um homem alto, de porte altivo, olhar sereno, sonhador, porém firme. Um homem esforçado, extremamente honesto, trabalhador, querido entre seus subordinados na fábrica de celulose em São Caetano. Ao passar pelo corredor da sala para a cozinha, vislumbrou sua caçulinha aos prantos, debruçada sobre uma pilha de livros. Foi ter com sua esposa na cozinha para saber o que havia acontecido. Christel mostrou-lhe a prova de Geografia e contou como sua filha chegara em casa depois da escola.
Após tomar uma xícara de café preto, foi até a sala de jantar conversar com sua para pequena. Com um sorriso compreensivo, fê-la sentar-se em seu colo. Disse-lhe para esquecer por um momento o que a afligia. Antes de sentar-se à mesa da sala de jantar, havia pegado um atlas e um globo terrestre.
_ “Ingelein, vou contar-lhe uma estória... é sobre uma coisa que aconteceu comigo há muito tempo...” disse ele, tirando a franjinha loira dos olhinhos vermelhos de sua filha. “Você sabia que seu pai é um descobridor?” perguntou a ela.
“Descobridor, Papi? Como assim?” disse ela incrédula.
“Pois é, minha filha, um descobridor como Cristóvão Colombo, que descobriu as Américas, ou como Pedro Álvares Cabral, que descobriu o Brasil”, continuou. Os olhos da menina se iluminaram. Um misto de surpresa e curiosidade fez seu coraçãozinho bater mais forte.
- “É mesmo, Papi? Conte-me!”, disse ela ansiosa.
- “Num belo dia de sol, num verão agradável há muitos anos, acordei bem cedo e fui correndo para a praia.” Disse ele. “Fiquei surpreso, pois defronte à praia, havia uma pequena ilha, que não estava lá na noite anterior”. “Esfreguei meus olhos, reabri os olhos – e ela continuava lá!”, disse ele.
Inge estava boquiaberta: “Verdade???” -“Sim - disse ele, divertindo-se com a credulidade da filha - e o mais interessante, é que não estava muito longe da praia. Então resolvi entrar no mar e nadei até a ilha.”.
- “Nossa, Papi!” - murmurou a pequena.
-“Quando cheguei à praia de areia fina e branca, fui recebido por algumas pessoas, que pareciam estar me aguardando...”, disse Franz. “Apresentei-me e eles falavam alemão e também inglês com um certo sotaque, mas eu não conseguia identificar de onde”, continuou ele. “Perguntei onde eu estava, e um dos locais respondeu que eu estava numa ilha muito especial: Sirucadea” E que ninguém, absolutamente ninguém dos continentes havia conseguido chegar até ela até aquele momento!”disse o pai”. Ele contara à filha detalhes da ilha, das pessoas e da língua que falavam, o “sirucadês”, que era uma mistura de línguas da Europa Oriental com inglês e alemão. As pessoas pareciam uma miscigenação entre europeus e eurasianos.
“Eurasianos???” exclamou a menina. “O que é isso?” O pai, então começou a mostrar à filha lugares no atlas e no grande globo da estante da sala, explicando as características de povos da Europa, da Ásia, da Eurásia, Oriente e Ocidente, Hemisférios norte e sul, topografia, geografia política, incluindo sempre dados sobre a ilha, e os diferentes lugares em que ela surgia a cada manhã. Contou-lhe que ficara dois anos morando nesta ilha e que havia dado a volta ao mundo duas vezes até retornar ao ponto de onde havia saído. Essa viagem fantástica a fascinou de tal forma que acabou povoando seus sonhos com as viagens que seu pai descrevera e teve um sono bastante agitado.
Parecia estar vivendo uma realidade alternativa cheia de mágicas fantasias oníricas, onde podia visitar mundos diferentes de sua pequena realidade e entrar em contato com diferentes povos e culturas.
Ao acordar na manhã seguinte, mal conseguia conter sua ansiedade. Precisava compartilhar esta experiência fantástica com as amiguinhas na escola. Precisava contar à professora de história e geografia as descobertas de seu pai. Havia esquecido completamente da prova de geografia depois do recreio. Normalmente teria ficado apreensiva e nervosa. Sua cabecinha fervilhava com imagens de lugares exóticos, praias distantes, lugares longínquos. Chegando à escola, foi correndo ter com sua turminha. As meninas só falavam da prova que iriam ter. Ela disparou a contar as aventuras de seu pai. As meninas não se contiveram e desataram em gargalhadas divertidas. A pequena ficara desolada. Não entendia por que elas fizeram pouco de sua interessantíssima história. Antes do recreio, foi ter com sua professora. Seu coração aos pulos, mal lhe cabia no peito. Contou-lhe a epopéia paterna. Sua professora apenas sorriu condescendente. Tocou o sinal do recreio. Foi ao pátio encontrar com suas amiguinhas. Elas não pouparam brincadeiras e gozações. Decepcionada, afastou-se e voltou para a sala de aula. Sentou-se em sua carteira e aguardou o final do intervalo do lanche. Não tocou no sanduíche que sua mãe preparara com tanto carinho. Logo a sala estava em polvorosa por causa da prova. A professora entrou e pediu que se sentassem e fizessem silêncio. Distribuiu as provas de geografia. Inge nem parecia se importar com a prova. Escrevinhou seu nome, sem o capricho costumeiro e assim que a professora deu o sinal para que começassem, foi lendo e respondendo todas as perguntas como se fossem algo há muito conhecido e entediante. Terminou a prova 15 (quinze) minutos antes do tempo, entregou cabisbaixa o papel à professora, pegou sua mala e saiu da sala. Pediu para esperar na biblioteca. A professora pediu que voltasse à sua carteira e aguardasse o resultado da prova. Um pouco mais de meia hora depois, a professora distribuiu as provas, já corrigidas para todos os alunos da classe. As notas variavam de 6 a 10. A maior nota tinha sido da pequena Inge. Tirara um 10! O único 10 da sala. A pequena pegou a prova e correu para a saída. Só queria chegar em casa e esquecer das gozações das amiguinhas. Todas diziam que essa história era uma grande mentira. Como assim, mentira? Pensou ela. Como MEU pai iria me contar uma mentira? Jamais!
Chegou em casa, escondeu-se em seu quarto e recusou-se a almoçar. Sua mãe tentou, em vão, convencê-la a comer. Esperou seu pai chegar em casa. Quando ele finalmente chegou, ela disse-lhe, com o coração revoltado e em tom de mágoa: “Você mentiu para mim, Papi!” “Me fez de boba!” “Estou de mal com você!” A prova estava em cima da mesa. Seu pai viu a nota de relance.

Pegou a prova, puxou a cadeira e sentou-se a seu lado. Olhou a prova de ponta a ponta. Feliz com o resultado, disse: “Inge, minha filha, você viu a nota que você tirou na prova? Você entende agora o que eu fiz?”

Que linda história!!! É verdade? Vou ver se faço isso com meu filho de 7 anos que está com muitas dificuldades na escola. E não consegue entender nem matemática nem geografia... espero que funcione! Gostei! Foi inspirador!!!
ResponderExcluirPedro