terça-feira, 16 de outubro de 2012

Ensaio sobre o Ridículo...


Ensaio sobre o Ridículo...
15/10/2012

 

Há, exatamente 5 dias, no dia do meu 56º aniversário, fiz uma constatação no mínimo bizarra e curiosa: estou viva! ( Brilhante! Quem estaria escrevendo isso em meu lugar?!)


Bem, cheguei a essa conclusão devido àquela nossa velha e conhecida sensação de panapaná gástrico!  Essa deliciosa, mas ao mesmo tempo desconfortável sensação de farfalhos de centenas de asinhas no estômago. (O que raios é panapaná? – perguntaria você. Essa veio realmente do fundinho do meu baú – senti-me jurássica agora!) Panapaná ou boana é um bando de borboletas em revoada, migrando para locais mais floridos e mais quentes (agora é a bióloga falando...) e, não, não pesquisei no Google! Confiei em minha memória e também estava com preguiça de levantar e ir até o computador. *(Escrevi este texto à mão primeiro).


Uma certeza eu tive, não era fome, nenhuma sensação de vazio, e sim uma sensação de preenchimento por lindas criaturas aladas e furiosamente agitadas dentro de minha cavidade estomacal. Mas, esta sensação não pára por aí... Racionalmente falando, vamos analisar melhor: Quando esse tipo de sensação me invadia? – Geralmente quando estava prestes a entrar em cena na época em que fazia teatro amador ou quando era bem sucedida em alguma empreitada e aguardava reconhecimento ou aprovação, ou... (aí vem a bomba, a parte mais engraçada!) - quando me apaixonava por alguém!


Conclusão: não era fome e eu não tinha feito nada que merecesse algum reconhecimento ou coisa que o valha. Então, só poderia ser uma única coisa – estou apaixonada! E isso sempre me fez sentir viva!


“Aaaah, não!”, pensei eu com os meus botões. “Não pode ser! Isso é simplesmente ridículo!” Eu até desconfio de quem possa ser o objeto desse afeto inusitado e fora de propósito... mas, será?


Fui investigar isso mais a fundo. Levantei-me, como em um transe, vencendo a inércia da preguiça galopante e fui olhar o computador. Como uma lança, minha razão foi atingida com um impacto assustador. (Ou será que foi o coração, que já está cansado e todo raladinho e coberto de cicatrizes?) O sobressalto foi tremendo! Já há algum tempo minha razão se impusera sobre esse coração mole e bobo. Agora ambos, razão e sentimento, concordaram com a constatação visual: Estou maluca! Doidinha de pedra! Estava ali na minha frente, a irrefutável prova do flagrante delito – aberta na tela, a foto do indivíduo responsável pelo meu futuro encarceramento em alguma instituição mental! Ampliada e sorrindo para mim (bem, não exatamente para mim – o que prova que minha imaginação desatou em disparada e tomou as rédeas) a foto do rapaz, em excelente forma física (e que físico!), lindo sorriso (...estou com calor!), dentes maravilhosos, (lá vai a minha imaginação de novo...) cabelos negros de corte impecável, rosto lindamente iluminado por um olhar franco e honesto (e que olhos!) e... ah, o resto você mesmo imagina. Uma perfeição! (Estou sem fôlego e o meu coração completamente descompassado!)


“ Ahhh, não pode ser!” (Então, como você explica a foto dele copiada em sua “pastinha” de amigos, heim, lindinha???)


Realmente devo ter perdido o juízo. Roubei a foto do rapaz, (e que exemplar, ufa!) Para quê?


Não sei... Acho que o meu cérebro entrou em hibernação ou coma por alguns instantes, só pode!


Quanto mais olho para a foto e para o perfil dele em minha rede social, mais intensamente e mais desconcertantemente essas borboletas malditas farfalham, querendo até sair pela boca! E isso seria desastroso...


Mas, diria você, o que há de errado ou demais em se apaixonar?


Nada... se for algo mais razoável e plausível! (O que há de razoável e plausível nesse estado???)


O tal (preciso recuperar o fôlego) objeto do meu afeto é simplesmente 16 anos mais novo que eu... Sinto-me absolutamente ridícula, desconcertada com mais esta constatação.


Este belo (!) exemplar de representante do sexo masculino (aaaahhh, minha imaginação está indo longe demais!) pode ter, literalmente, qualquer mulher que desejar. (Aiii, essa doeu e foi fundo!) e a improbabilidade de alguma ligação maior não faz  estas abomináveis criaturas, esses insetos ignóbeis e inconvenientes, sossegarem de maneira alguma!


O que faço agora? E agora José? (Simples: NÃO FAÇA NADA!!!) – (Mais fácil falar que colocar em prática...)


Como faço para colocar novamente o cabresto nessa indisciplinada e rebelde imaginação que alimenta estes insetos estomacais e os faz crescer em proporções medonhas?


Odeio perder o controle racional dos meus sentimentos. Estes sentimentos descontrolados parecem minhocas mutantes que povoam as ideias, me desconcentram, me tiram de minha zona de conforto, me lançam em território desconhecido e incerto, me tiram do meu ponto de equilíbrio. Por outro lado, a sensação de estar viva é deliciosa e torna o mundo mais bonito, o sol mais brilhante, as flores mais perfumadas e as borboletas (lá vêm elas de novo!) mais coloridas e eu mais ridícula que nunca! Sentindo-me feito colegial, sorrindo à toa, fantasiando antes de adormecer e sonhando de olhos abertos. Quimeras...


Como vou conseguir encará-lo da próxima vez? (Por enquanto ele nem faz ideia do que se passa...)


Sei exatamente o que vai acontecer. Sentirei meu rosto em chamas, estarei ruborizada (parecendo a Emília do Sítio do Pica-Pau amarelo!), meterei os pés pelas mãos, perderei o fio da meada, começarei a gaguejar, tropeçar, derrubar tudo ao meu redor, ainda mais que o normal, terei brancos de memória... Resumindo, uma completa idiota!


Sim! Estou apaixonada. (Até parece aquela música brega do Daniel...) Apaixonada da forma mais estúpida possível. Ridículo! Hilário! Triste e sem futuro...


Minha imaginação produz centenas de argumentos, desculpas para manter ativa essa emoção absurda, tomando como exemplos a famosa e maravilhosa Tina Turner e seu companheiro alemão, 17 anos mais novo ou até a nossa brasileira, Suzana Vieira e seu namorado, quase uma geração mais novo!


“Mas, e daí?”, diz essa vozinha interna irritante, tagarela e insistente. (Mais um indício da necessidade de uma camisa de força... o Charcot que me aguarde!) Além do mais, não tenho as super pernas da eterna diva, nem o viço ou sequer os meios para qualquer intervenção com o intuito de apagar ou deter as marcas do tempo e das experiências traumáticas desta patética existência.


Baixa autoestima, diria você. Não. Bom senso e espelho! A realidade é cruel. Ainda agora, ecoa da rádio alemã que adoro ouvir online, a nova música da Adele, “ Skyfall”, e a frase “ This is the end” rasgando meu coração. (É a música tema do novo filme de James Bond – 007 – Skyfall).


É como cair do céu sem paraquedas e acabar num mergulho profundo no mar. Não há como sair incólume dessa experiência, muito menos deste sentimento. Dirão os sábios que sairei mais amadurecida (já caí do pé de tão madura!) e bem mais forte... A essa altura da minha vida, já deveria ter me tornado uma fortaleza inatingível, ou pelo menos ter aprendido a arte de controlar esses sobressaltos cardíacos e esses devaneios malucos. Sinto-me completamente fora de contexto, mas dentro do meu elemento – uma contradição quase paradoxal, eu sei. Sou uma criatura aparentemente madura, mas sou na verdade, a mesma menina ingênua de 16 anos, apaixonada pela vida, pelas pessoas e apaixonada novamente por pessoas improváveis, sonhando com utopias Quixoteanas.


Pois é, estou apaixonada. O coração dispara, as mãos ficam úmidas e me torno essa pessoa estúpida, idiota e incoerente outra vez.




Consegui, finalmente, dominar com perfeição e maestria, 
a técnica correta de fazer tudo errado!


Adele - SKYFALL


domingo, 20 de fevereiro de 2011

Uma Ilha Itinerante...
Era uma hora da tarde, a pequena Inge, com o rosto inchado de tanto chorar, finalmente venceu a vergonha e conseguiu reunir forças e coragem suficientes para abrir o pequeno portão verde da entrada de sua casa. Aos oito anos de idade, sentia-se derrotada e fracassada... Tirara a pior nota da classe em Geografia. Sentia-se humilhada por não conseguir entender, imaginar, visualizar e localizar espacialmente continentes, países, estados, cidades e bairros. Para completar, não possuía um senso de direção apurado, característica que herdara de sua mãe, Christel. Christel era uma mãe dedicada, porém rígida e crítica e sua forma de demonstrar seu amor pelos dois filhos e seu marido era cuidar de tudo com primor, não se permitindo esquecer um detalhe sequer. Era enfermeira de formação. Era dura, às vezes implacável até, no que dizia respeito à educação de seus filhos, mas era assertiva e correta. Paralisada, Inge precisava vencer ainda dois grandes obstáculos: abrir a porta da sala e enfrentar sua mãe... O que ela faria? O que diria? Certamente reclamaria pela filha não ter se esforçado o suficiente... Respirou fundo, abriu a porta e entrou.
Sua mãe estava na cozinha cuidando do almoço. Assim que avistou a filha, percebeu que havia algo errado. Largou os pratos que colocava na mesa e foi ter com a pequenina. Perguntou docemente o que a preocupava. Inge começou a soluçar e atropelando as palavras e com as mãozinhas trêmulas, entregou-lhe a prova com a nota baixa. Sua mãe a abraçou e tentou acalmá-la. Disse-lhe para lavar as mãos e o rosto e sentar-se à mesa para almoçar. Seu irmão, Dietmar, acabara de chegar em casa da escola também.
Reclamou que tinha ido à escola da irmã e não a tinha encontrado. Estava sem fôlego. Dietmar era cinco anos mais velho e estudava no colégio de meninos no quarteirão ao lado da escola da irmã. Como irmão mais velho, sentia-se responsável pelo bem estar da irmãzinha. Estava bastante contrariado por ela ter se aventurado sozinha a caminho de casa. Ia dar-lhe uma senhora bronca, mas sua mãe fez um sinal para que ele se calasse. Sentaram-se à mesa e almoçaram em silêncio. Inge mal conseguia comer. Levantou-se, foi até a sala de jantar com seus livros, e começou a ler e tentar estudar, decorar, sem entender do que se tratava. Lágrimas escorriam-lhe pela rosada face. Entardecia... Era hora de o engenheiro Franz voltar do trabalho. Ele era um homem alto, de porte altivo, olhar sereno, sonhador, porém firme. Um homem esforçado, extremamente honesto, trabalhador, querido entre seus subordinados na fábrica de celulose em São Caetano. Ao passar pelo corredor da sala para a cozinha, vislumbrou sua caçulinha aos prantos, debruçada sobre uma pilha de livros. Foi ter com sua esposa na cozinha para saber o que havia acontecido. Christel mostrou-lhe a prova de Geografia e contou como sua filha chegara em casa depois da escola.
Após tomar uma xícara de café preto, foi até a sala de jantar conversar com sua para pequena. Com um sorriso compreensivo, fê-la sentar-se em seu colo. Disse-lhe para esquecer por um momento o que a afligia. Antes de sentar-se à mesa da sala de jantar, havia pegado um atlas e um globo terrestre.
_ “Ingelein, vou contar-lhe uma estória... é sobre uma coisa que aconteceu comigo há muito tempo...” disse ele, tirando a franjinha loira dos olhinhos vermelhos de sua filha. “Você sabia que seu pai é um descobridor?” perguntou a ela.
“Descobridor, Papi? Como assim?” disse ela incrédula.
“Pois é, minha filha, um descobridor como Cristóvão Colombo, que descobriu as Américas, ou como Pedro Álvares Cabral, que descobriu o Brasil”, continuou. Os olhos da menina se iluminaram. Um misto de surpresa e curiosidade fez seu coraçãozinho bater mais forte.
- “É mesmo, Papi? Conte-me!”, disse ela ansiosa.
- “Num belo dia de sol, num verão agradável há muitos anos, acordei bem cedo e fui correndo para a praia.” Disse ele. “Fiquei surpreso, pois defronte à praia, havia uma pequena ilha, que não estava lá na noite anterior”. “Esfreguei meus olhos, reabri os olhos – e ela continuava lá!”, disse ele.
Inge estava boquiaberta: “Verdade???” -“Sim - disse ele, divertindo-se com a credulidade da filha - e o mais interessante, é que não estava muito longe da praia. Então resolvi entrar no mar e nadei até a ilha.”.
- “Nossa, Papi!” - murmurou a pequena.
-“Quando cheguei à praia de areia fina e branca, fui recebido por algumas pessoas, que pareciam estar me aguardando...”, disse Franz. “Apresentei-me e eles falavam alemão e também inglês com um certo sotaque, mas eu não conseguia identificar de onde”, continuou ele. “Perguntei onde eu estava, e um dos locais respondeu que eu estava numa ilha muito especial: Sirucadea” E que ninguém, absolutamente ninguém dos continentes havia conseguido chegar até ela até aquele momento!”disse o pai”. Ele contara à filha detalhes da ilha, das pessoas e da língua que falavam, o “sirucadês”, que era uma mistura de línguas da Europa Oriental com inglês e alemão. As pessoas pareciam uma miscigenação entre europeus e eurasianos.
“Eurasianos???” exclamou a menina. “O que é isso?” O pai, então começou a mostrar à filha lugares no atlas e no grande globo da estante da sala, explicando as características de povos da Europa, da Ásia, da Eurásia, Oriente e Ocidente, Hemisférios norte e sul, topografia, geografia política, incluindo sempre dados sobre a ilha, e os diferentes lugares em que ela surgia a cada manhã. Contou-lhe que ficara dois anos morando nesta ilha e que havia dado a volta ao mundo duas vezes até retornar ao ponto de onde havia saído. Essa viagem fantástica a fascinou de tal forma que acabou povoando seus sonhos com as viagens que seu pai descrevera e teve um sono bastante agitado.
Parecia estar vivendo uma realidade alternativa cheia de mágicas fantasias oníricas, onde podia visitar mundos diferentes de sua pequena realidade e entrar em contato com diferentes povos e culturas.


Ao acordar na manhã seguinte, mal conseguia conter sua ansiedade. Precisava compartilhar esta experiência fantástica com as amiguinhas na escola. Precisava contar à professora de história e geografia as descobertas de seu pai. Havia esquecido completamente da prova de geografia depois do recreio. Normalmente teria ficado apreensiva e nervosa. Sua cabecinha fervilhava com imagens de lugares exóticos, praias distantes, lugares longínquos. Chegando à escola, foi correndo ter com sua turminha. As meninas só falavam da prova que iriam ter. Ela disparou a contar as aventuras de seu pai. As meninas não se contiveram e desataram em gargalhadas divertidas. A pequena ficara desolada. Não entendia por que elas fizeram pouco de sua interessantíssima história. Antes do recreio, foi ter com sua professora. Seu coração aos pulos, mal lhe cabia no peito. Contou-lhe a epopéia paterna. Sua professora apenas sorriu condescendente. Tocou o sinal do recreio. Foi ao pátio encontrar com suas amiguinhas. Elas não pouparam brincadeiras e gozações. Decepcionada, afastou-se e voltou para a sala de aula. Sentou-se em sua carteira e aguardou o final do intervalo do lanche. Não tocou no sanduíche que sua mãe preparara com tanto carinho. Logo a sala estava em polvorosa por causa da prova. A professora entrou e pediu que se sentassem e fizessem silêncio. Distribuiu as provas de geografia. Inge nem parecia se importar com a prova. Escrevinhou seu nome, sem o capricho costumeiro e assim que a professora deu o sinal para que começassem, foi lendo e respondendo todas as perguntas como se fossem algo há muito conhecido e entediante. Terminou a prova 15 (quinze) minutos antes do tempo, entregou cabisbaixa o papel à professora, pegou sua mala e saiu da sala. Pediu para esperar na biblioteca. A professora pediu que voltasse à sua carteira e aguardasse o resultado da prova. Um pouco mais de meia hora depois, a professora distribuiu as provas, já corrigidas para todos os alunos da classe. As notas variavam de 6 a 10. A maior nota tinha sido da pequena Inge. Tirara um 10! O único 10 da sala. A pequena pegou a prova e correu para a saída. Só queria chegar em casa e esquecer das gozações das amiguinhas. Todas diziam que essa história era uma grande mentira. Como assim, mentira? Pensou ela. Como MEU pai iria me contar uma mentira? Jamais!

Chegou em casa, escondeu-se em seu quarto e recusou-se a almoçar. Sua mãe tentou, em vão, convencê-la a comer. Esperou seu pai chegar em casa. Quando ele finalmente chegou, ela disse-lhe, com o coração revoltado e em tom de mágoa: “Você mentiu para mim, Papi!” “Me fez de boba!” “Estou de mal com você!” A prova estava em cima da mesa. Seu pai viu a nota de relance.

Pegou a prova, puxou a cadeira e sentou-se a seu lado. Olhou a prova de ponta a ponta. Feliz com o resultado, disse: “Inge, minha filha, você viu a nota que você tirou na prova? Você entende agora o que eu fiz?”

sábado, 10 de julho de 2010

Viagem


Viagens...


Hoje é mais um dia, apenas... Muitos pensamentos, sensações, esperanças, expectativas, ações, realizações...
Coisas abstratas e coisas concretas... Pensamentos, idéias... Sentimentos, desejos, sonhos...
O tempo passando, fichas caindo e, mesmo assim, estou aqui em meu mundo, minha bolha isolada...
Realidade atual - bizarra e surreal... Como se estivesse em vários mundos paralelos ao mesmo tempo... Como se estivesse em mundos paralelos nos quais diferentes decisões alteraram a situação presente, como num "efeito borboleta", cada um com uma estória com um começo - um meio e final diferentes! Estou numa névoa de animação suspensa, assistindo a todas as estórias simultaneamente, estando ao mesmo tempo, dentro e fora de todas elas... Mergulhando em mundos superiores, experimentando sensações nunca antes saboreadas, vendo e visualizando roteiros semelhantes e também outros totalmente diversos daqueles vividos, estando concomitantemente dentro de um passado remoto, um presente momento e um futuro promissor, sem que nenhuma confusão de fatos interfira com o desenrolar do contexto... Cada uma com trilhas sonoras condizentes com o ambiente vivenciado. Mesmo sendo várias realidades contemporâneas, nenhuma interfere na outra ou nem mesmo atrapalham-se entre si. Os sons são distintos e separadamente se unem numa sinfonia repleta de outras sinfonias...
Pode ser que meu estado fragilizado e febril esteja produzindo tais efeitos. Estou de cama há 4 dias, sem vontade de interagir com o mundo exterior, sem vontade de fazer absolutamente nada a não ser pensar, talvez sonhar... Recordações, antes distantes, parecem estar acontecendo agora e à medida que se desenrolam frente aos meus olhos e meus sentidos, posso modificar seus desenlaces, experimentando novas situações e sensações em minha mente. Algumas das realidades alternativas trazem real alegria, satisfação que dá vontade de repetí-las infinitamente... Outras, nem tanto... Posso interompê-las, modificá-las ao meu bel prazer... Aquelas que transcorrem tal qual foram, recarregam as emoções subterrâneas... Se me desagradam, posso revê-las de várias diferentes maneiras ao mesmo tempo... assim fica mais fácil escolher aquela que mais me agrada para poder repetí-la mentalmente então.
Essa tosse profunda e dolorida me arranca desse estado onírico de forma brutal e cruel! Quando a crise aguda acalma, consigo retomar esses sonhos, ou serão fantasias? Certamente desvarios e delírios de um cérebro cozinhando há dias numa temperatura um tanto maior que a prevista para um funcionamento normal, funcional e corriqueiro!!!
Mas não é de todo desagradável a sensação... é algo compacto e denso de se absorver num instante... Como se fossem "cubos tridimensionais" com informações e cenas desenrolando-se concomitantemente, tudo em blocos sólidos, ao mesmo tempo, hologramas...
Experimentei estados semelhantes quando passei por experiências de "quase-morte", onde numa das vezes, quando estive em coma por aproximadamente 3 dias, pude vivenciar realidades paralelas, podendo ver dentro e fora do local onde meu corpo físico se encontrava, podendo ver o espaço inter molecular e ao mesmo tempo, ver o objeto total, onde coisas aconteciam fora e dentro das pessoas, objetos, plantas, animais, estruturas de prédios, paredes, limites ilimitados, sons jamais ouvidos fisicamente, sensações sublimes jamais tidas e sentimentos tão fortes, que o corpo físico não suportaria. Poder vislumbrar espectros de cores não perceptíveis pelos olhos físicos. Onde estaria acontecendo isso tudo? Em minha mente? Mas eu não estava em coma? Como poderia ser dentro de meu corpo físico se eu podia percebe-lo externamente? Era como se eu flutuasse por cima de mim mesma, mas também dos limites físicos do espaço que encerrava meu corpo, como se mesmo fazendo parte reconhecível do que percebia como sendo minha identidade terrena, houvesse algo mais leve, suave, etéreo, mas ao mesmo tempo, inteligente e com vontade própria! Flashes parecidos ocorreram alguns anos mais tarde, quando quase me afoguei no mar, e nos instantes seguintes à perda de consciência, pude ver tudo ao mesmo tempo novamente... muitos anos depois, mais uma dessas experiências se
repetiu ao sofrer uma parada cárdio-respiratória durante uma cirurgia, e também logo após a superficialização da anestesia, onde nova parada ocorreu. Nesta última, mais de 3 minutos e alguns segundos haviam se passado, e havia sido declarada a morte clínica... Momentos de flutuação entre tempo-espaço, com total alteração de percepções... Momentos de total consciência e também de decisão... de permanecer em um plano material, ou seguir em uma diferente dimensão... Interessante que todas as vezes, decidi continuar... No momento em que me encontro, não há alguns dos elementos das experiências anteriores... Não há escolha de ir ou continuar aqui, agora... Mas tempo é percebido de uma forma completa e total, sem uma seqüência linear. É como se tudo fosse parte integrante de um bloco cúbico transparente, e o centro fosse o presente, o em torno, o passado e o contorno externo, o futuro. É bastante difícil descrever tal experiência, pois faltam elementos físicos que resumam tal sensação. Como se o plano físico carecesse de elementos e dimensões alcançáveis aos 5 sentidos...
Pode ser que esteja simplesmente enlouquecendo... (!) O que será que isso realmente quer dizer? Não estou sob efeito de nenhuma substância que altere a química do cérebro... nenhuma droga ou alucinógeno... Nada... somente um chá de menta com alcaçuz... que eu saiba, nada que induza a uma alteração de consciência... a não ser a febre... mas nem está tão alta a ponto de produzir alucinações. Pareço estar bastante lúcida, apesar do desvario... Divertido isso!!!
Consigo visualizar o que penso e também ouvir o que digo internamente... estranho como tudo parece ser sólido e etéreo ao mesmo tempo... sons, luzes, cores, idéias, pensamentos, palavras, coisas, espaços, elementos, formas, seres, tudo! Demais para se processar de uma vez... como informações em bloco! Você sabe, mas não sabe como nem por que sabe... mas mesmo assim, sabe...
Enfim, um estado até prazeroso... é isso!!!
Que viagem!
Sem pressa... tarifas, taxas, multas, chegadas ou partidas... apenas viagens...









música: My Declaration by Eliza Hope Bennett do filme "Inkheart"

_ obra: "Tintenherz" [Inkheart Trilogy ] de Cornelia Funke



quarta-feira, 1 de abril de 2009

Acidente de estudo...




Estava eu, uma jovem professorinha de 19 anos, lecionando inglês e alemão em uma renomada escola de línguas de São Paulo, quando um episódio engraçado por pouco não encerrou minha breve carreira como instrutora...
Num agradável fim de tarde de primavera, cheguei esbaforida para minha primeira aula daquele dia. Era uma turma fechada de 8 engenheiros da Volkswagen, que achava que eu ainda era menor de idade... A média de idade dos alunos era de uns 25 a 30 anos. Todos homens. Nessa época, eu realmente não aparentava minha idade, e devido a isso, fui barrada em shows, cinemas, barzinhos...
Alguns dos alunos mais velhos tinham alguma dificuldade em me aceitar como professora. Imagine uma turma de engenheiros, quase todos solteiros e “avulsos” , com bastante energia, inteligentes e machistas... Um deles, chamá-lo-ei de Ricardo, era especialmente bem-apessoado e tinha um senso de humor daqueles! Ele sempre começava a aula contando alguma piadinha, com o intuito de me deixar sem-graça ou embaraçada com algum comentário picante. As aulas sempre decorriam num clima agradavelmente hilário e descontraído. Ricardo aproveitava a ocasião para flertar abertamente com a professorinha... que obviamente fazia de conta que nem percebia.
Como durante as aulas não era permitido falarmos português, eu me desdobrava para explicar e esclarecer todas as dúvidas que naturalmente surgiam. E para isso, tinha de lançar mão de técnicas teatrais e algumas vezes até exageradas de representação. Faltava pendurar-me no lustre da sala para que eles entendessem algum tópico ou conceito mais complicado...
E sempre que eu usava a lousa para anotar algo, Ricardo soltava uma de suas piadinhas...
E para fazer com que ele parasse com algumas das brincadeiras, eu revidava das mais variadas formas, e algumas vezes voavam objetos pelo ar – canetas do quadro branco, borrachas , lápis, canetas esferográficas, apagadores do quadro... Os apagadores eram feitos pela própria escola, (naquela época ainda não havia apagadores de E.V.A! ou de plástico com feltro!). Consistiam de um pedaço de madeira, como um pequeno bloco retangular, revestido com um pedaço de flanela e para manter a flanela sobre a madeira, havia uma capinha de alumínio recobrindo uma das superfícies do bloco. Alguns desses apagadores possuíam arestas cortantes, por causa das rebarbas de corte do metal.
Ricardo sempre desviava dos objetos voadores identificados, mas numa das vezes, já sem opções de objetos para arremesso, joguei o apagador. Ricardo, deliciando-se com o rubor que causara em meu rosto, esqueceu-se de desviar do objeto que o atingiu em cheio, no centro de sua testa. Infelizmente, uma das rebarbas do metal o feriu e o corte precisou de uma sutura de 11 pontos! Fiquei mortificada com o ocorrido e levei o pobre rapaz ao pronto-socorro mais próximo. Cheguei a pensar que ele iria desistir de continuar o curso, pedir transferência de turma, ou pedir que eu fosse demitida... Mas não foi isso que aconteceu...
No dia seguinte, ele apareceu com um curativo enorme na testa, e entrou em aula usando um capacete de motocicleta!
Sempre de bom-humor, ele insistiu em permanecer na turma e fez questão de me manter como professora.
Dois dias depois do ocorrido, ele continuava a assistir às aulas usando o referido capacete, o diretor e dono da escola, passando pelo corredor, olhou para a classe, cumprimentou-me, e continuou seu caminho. Segundos depois voltou para conferir se não havia se enganado com o que vira... Um aluno de capacete em plena sala de aula!
Nesse instante pensei que seria demitida ao ouvir as palavras: “ Dona Inge, em minha sala, imediatamente!” Gelei. Enquanto o diretor me passava o maior sabão, já preparando a carta de demissão por justa-causa, Ricardo havia feito um abaixo-assinado com os colegas de sala e contou com mais seis outras turmas que fizeram questão de assinar, pedindo que eu fosse mantida como professora... Minha demissão foi reconsiderada.

Os engenheiros daquela turma ainda desenvolveram um novo tipo de apagador, bem menos perigoso, feito de borracha com feltro, presenteando a escola com vários exemplares. No final do estágio, na cerimônia de encerramento, fui por eles homenageada, com a entrega de um troféu de melhor professora - arremessadora de apagadores de melhor pontaria(e de alta-periculosidade!) – Troféu: um apagador gigante acompanhado de um manual de instruções de manobras de desvio de “objetos-voadores-bem-identificados” e de como evitar “Acidentes de Estudo” para os alunos...




quarta-feira, 25 de março de 2009

THE TREE...


It’s all in the attitude to start something…


It is how we can change a complicated situation, our path, our way of thinking, our lives, and… the world!

Este é um comercial hindu que não vende nenhum produto.
This add does not sell any product.


Fala da diferença que faz ter iniciativa.
What difference it makes to take the iniciative.

Fala da força que nasce da união.
It shows that the gathering of efforts generates real power for changes.

Fala da solução pela colaboração de todos, não importa o tamanho do problema.
It shows how the solution of almost any problem, regardless how big or small through union.

Fala de objetivos.
It shows goals.

Fala de exemplos.
It sets examples.

Algo que o mundo precisa bastante e, como mostra o filme, é tão simples de conseguir.
This movie shows exactly what the world needs the most, and how easy it is to achieve.

Tudo começa com uma atitude...
It all starts with a simple attitude…

De um garoto.
Of a little boy.

É o que eu chamo de LIDERANÇA POSITIVA!
That’s what I call POSITIVE LEADERSHIP!









o episódio da aranha...


Ontem à noite, eu estava especialmente cansada... mental, física, emocional e psicologicamente...
Não vem ao caso, agora, discursar sobre esse assunto, não seria oportuno.
Não costumo deitar-me antes da 1 da manhã, mas mandei meus alunos embora antes de terminar a aula, por não estar conseguindo me concentrar. O cansaço era demasiado. Não me lembro de ter sentido uma exaustão dessa grandeza em meus 52 anos intensamente vividos!
Deitei-me para relaxar um pouco, ainda vestida. Pretendia apenas relaxar, tentar meditar um pouco, depois comer alguma coisa, tomar um banho, olhar meus e-mails e dormir. Nem preciso dizer que adormeci quase que imediatamente! Esqueci de guardar o carro na garagem, deixei-o dormir na rua... (atitude imprudente...) Deixei computador ligado, celulares (tenho 3!) telefone sem fio no andar de baixo e deixei o mundo ser mundo...
De repente, ouvi lá no fundo, lá looonge, uma voz me chamando insistentemente... havia uma certa urgência em sua voz, e reconheci a voz como sendo de uma amiga querida, que mora fora de São Paulo, numa cidadezinha, uns 40 km daqui. A Lê é uma pessoa especial, doce, meiga, espiritualizada, vegetariana, enfim, toda "natureba". Ela mora num lindo sítio, rodeado por reservas florestais, cercada de plantas e animais, num lugarzinho bem parecido com o que imaginamos ser o paraíso... Enfim, uma paisagem mais do que bucólica.
Sua voz tornava-se mais e mais aguda, e seu chamado mais intenso. Lembro-me de constatar que estava dormindo, e questionei ainda meio em transe sonolento...-"Como a Lê poderia estar me chamando aqui se ela está na casa dela e eu aqui na cama, em casa?" Finalmente, depois de tanta insistência, acordei.
Fui ao banheiro, depois resolvi descer para tomar um pouco d'água. O telefone de casa pulou da mesa de tanto vibrar e chamar! Havia nele mais de 18 chamadas não atendidas, e todos os celulares haviam se deslocado a vários pontos longe da mesa, (dois estavam no chão e o outro na cadeira, a ponto de se suicidar pulando no chão!) de tanto vibrarem... atendi o telefone e reconheci a voz assustada da Lê. Ela falava rápido e tanto que eu mal conseguia entender o que dizia... meu cérebro ainda estava meio dormente.
Lembro de ter ouvido umas duas vezes a palavra monstro enorme, e aranha...
Tentei acalmá-la, e aos poucos, minhas funções cognitivas foram retornando a um estado mais ou menos funcional, a ponto de poder realmente inteligir o que me era dito.
Ela descreveu um ser monstruoso, de uns dois metros de altura, com oito longas pernas marrons  horrivelmente peludas, montado e segurando a maçaneta da porta, prendendo-a no escritório de sua casa (aquela no lugarzinho paradisíaco...) onde 4 pares de olhos a fitavam ameaçadoramente... Ela estava realmente em pânico. Essa imagem formada em minha mente, decorrente das descrições de minha amiga, era digna de um daqueles filmes de terror classe B! E em seguida me vieram cenas do filme "Aracnofobia" à mente... Um pouco mais sóbria então, optei por uma cena mais objetiva, mais pé-no-chão... Visualizei uma aranha marrom na porta, parecida com uma armadeira, de uns 12 cm de diâmetro, incluindo suas longas pernas, visão essa que realmente assustaria qualquer um. Uma imagem um pouco mais realista, apenas... Falando num tom calmo e esclarecedor, expliquei a ela que embora fosse um bicho assustador, não havia motivo real para estar assim tão aterrorizada.
Expliquei que o pobre animal certamente estava mais assustado que ela, e que a visão monstruosa de um ser bípede, enorme, (tadinha da aranha, tão pequenina perante esse ser humano enorme e ameaçador...), e cheguei até a pedir que minha amiga se colocasse na posição desse pobre ser artrópode e imaginasse o medo que esse "insetinho" teria dela...
Claro que isso foi absolutamente inútil... o terror de minha amiga, apenas entrou num patamar de um certo controle, para que ela não gritasse em desespero. Meus tímpanos já haviam sido sensibilizados o suficiente ao atender o telefone...Por sorte, o marido dela, um homem de belo porte, extremamente culto, e discípulo de uma certa xamã renomada, chegou enquanto conversávamos "calmamente" ao telefone. Ele teve a reação que se espera de um aprendiz de xamã...
Pegou uma latinha de inseticida em spray, e a esvaziou sobre o pobre inseto, que obviamente, completamente tonto e entorpecido pelas toxinas do veneno do spray, resolveu se esconder em algum lugar mais seguro... mas devido ao tamanho dele, apesar de estar bastante intoxicado, permanecerá vivo, aterrorizando seus hospedeiros ainda por algum tempo... Desejo que ele encontre o caminho para fora para evitar outra overdose de inseticida...
Os gatos de minha amiga estavam enlouquecidos atrás daquela pobre aranha, e já estavam apresentando sinais de intoxicação por inseticida.
Minha amiga, ainda ao telefone comigo, tossindo sem parar, descrevia a nuvem de inseticida que nublava sua visão da porta onde originalmente se encontrava o ser monstruoso, começando então uma crise de espirros... Seu companheiro já apresentava sinais de asma, parecendo um gato ronronando e conseguia ouvir um chiado esganiçado e o barulho de sua bombinha nebulizadora... Minha mente deveria ser censurada... Nesse momento, imaginei todos na casa, jogados no chão, prostrados inconscientes, e vitoriosa, a aranha gigante, com uma das patas levantada, em sinal de vitória, com as outras sete sobre os corpos dos meus amigos e seus gatos... Triunfo total sobre o inimigo poderoso! :)
Isso me pôs a pensar... Como somos seres estúpidos... Por medo, destruímos seres que nem sequer nos fizeram mal, nem nos ameaçaram, nem atacaram.
Nem nos damos ao trabalho de observar o outro ser, tentar entender o que o move, o que ele quer, o que está fazendo e por que. Vamos logo à destruição... somente depois perguntamos... ou nâo.
E ainda dizem que somos seres racionais, superiores aos animais...seres irracionais...


quarta-feira, 11 de março de 2009

Seguidores